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Atualizado: 3 de ago. de 2023

VOU ASSIM ARREBATA PÚBLICO E VAI ALÉM DO FASHION

A cantora Levita faz a abertura do desfile com música que remete a lenda piauiense e empoderamento travesti


Josias Dias em parceria com A Pimentel

Sou Assim l São Paulo (SP)

01 de agosto de 2023


A Vou Assim desfilou na Casa de Criadores, no Centro Cultural de São Paulo com coleção de upcycling e tecnologia trans, no dia 14 de julho. A idealizadora do projeto, A Pimentel, se sentiu felizarda com aclamação do público. O desfile contou com a apresentação da Cantora Levita, que abriu o espetáculo com a música “Destina” que fala sobre lenda piauiense. O evento foi realizado em parceria com a Secretaria de Cultura de São Paulo com apoio do Senac e outras marcas. E aconteceu do dia 12 ao dia 16 do mês passado.


“Travesti quer trabalho” esse foi o tema da Vou Assim no desfile da Casa de Criadores. A plataforma provou que trabalhar com upycycling e tecnologia trans é fazer moda. O desfile realizado na biblioteca do Centro Cultural de São Paulo teve a abertura com a cantora Levita Rangel, 26, com seu primeiro single autoral “Destina” que envolve a lenda piauiense “Num-se-pode”. Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro, “Num-se-pode” é um fantasma de uma mulher com beleza estonteante, e surgiu com os lampiões a gás da velha Teresina. Ela aparecia com o objetivo de seduzir os soldados e os boêmios da cidade que procuravam por diversão, e logo mais se transformava em um monstro gigante ao pedir um cigarro e afastava até o homem mais tirado a “machão”. Para a cantora, fazer a releitura dessa lenda em uma música é contextualizar com a sua existência enquanto travesti não binária:

“Eu relaciono a lenda piauiense “num-se-pode” com corpos trans e travestis. Eu ressignifico e eu digo que a minha “num-se-pode” é travesti. E eu sou a minha própria. Destina é uma música com embasamento na lenda, ela não é sobre a lenda, mas é uma música que fala sobre você reescrever seu próprio destino, que não é destino, é “Destina”. E eu repito isso diversas vezes para o meu mantra, para a minha transição.”

Levita acredita que desta forma coloca os corpos e corpas em um lugar de poder, de identificação, de autoestima e de ser sua própria destina. Antes de subir no palco ela contou estar muito ansiosa por ser a primeira vez que abrirá um desfile de moda em São Paulo. Sua parceria com a Vou Assim surgiu através da amizade com a Pimentel na música, algo que ambas estão experimentando juntas. A artista também fala sobre o esquecimento do Piauí enquanto estado, enquanto cultura. E as dificuldades de permear São Paulo:

“Tem sido muito desafiador, por ser uma pessoa travesti, por ser do Piauí que é um estado altamente invisibilizado. Então vir para cá é ser duplamente estigmatizada. Estou muito feliz de estar aqui, mas isso me lembra muito aquela velha história de pessoas nordestinas que vêm para São Paulo para ganhar dinheiro, seguir seus sonhos... e eu me vejo nesse contexto.”

A Pimentel tinha acabado de finalizar o seu segundo desfile do dia quando a abordei para uma nova entrevista. Antes, já tinha desfilado para a marca Berimbau Brasil, no jardim suspenso do CCSP. Seu olhar era de realização. A modelo e idealizadora do projeto estava apreensiva com as responsabilidades que tinha pela frente, mas no final a Vou Assim se reafirmou no universo da moda e arrebatou o público. Ao todo foram 30 modeles, 20 estilistas e 10 produtores que conduziram o desfile com as roupas feitas com upcycling e tecnologia trans. Ela explica que essa prática de costura não é novidade e sempre foi familiarizada:

...e é o que tem no sertão da Bahia: retalho. Lá não fala roupa de retalho? Então, é a mesma coisa. A gente sempre vem aprendendo como produzir desfile na Casa de Criadores. É uma demanda enorme. Mas eu acho que a gente entregou com êxito.”

Em outros tempos, as roupas de retalhos já foram muito utilizadas pelas pessoas mais vulneráveis financeiramente devido as instabilidades econômicas. Porém, nos últimos anos ganhou forças com as técnicas sustentáveis e o novo olhar da moda para a tendência. O objetivo é dar um novo sentido aos restos de tecidos que seriam descartados pela indústria, e entregar um material completamente transformado. A Ateliê Criativa Vou Assim aposta nessa identidade com apoio à arte de corpos dissidentes e pessoas trans. A plataforma surgiu no ano de 2016, na zona norte da capital paulista como brechó e hoje realiza inúmeras parcerias e colaborações com outras marcas e coletivas. Sobre a construção da moda ela deixa claro que o enfoque é a empregabilidade trans, suas conquistas e o encaixe de todes no mesmo espaço:

“A marca não é sobre roupa, é sobre pensar novas identidades de moda. A gente precisa pensar nos corpos que são reais, que existem de fato. É sobre pessoas. Nosso tema é “tecnologia trans” e “travesti quer trabalho”

De acordo com o Mapa de Impacto de 2021 da empresa, foram 200 pessoas trans e corpas dissidentes impactadas com o projeto e mais de 855 pessoas contempladas com as realizações das produções, performances, exposições, mostra de arte, fashion filmes e festivais. Amangelo Prateado, 26, é exemplo do sucesso do alcance da Vou Assim na inclusão. O produtor técnico do desfile da marca foi aluno da plataforma no primeiro curso de moda. Hoje, trabalha em parceira com a Vou Assim e com artistas de peso do segmento como a Vicenta Perrota e Brisa Flow: nesse projeto eu fiz produção técnica, tanto das oficinas, quanto dos desfiles e da Vou Assim Fashion Show. Ao todo são 60 pessoas para organizar, então é uma loucura.” – informa.


Japhette Ozias, de Benim, mora no Brasil há 11 anos e é formada em design de moda pela Unesp. Como uma mulher preta, africana ela acredita que forrar a cabeça com tranças e turbantes também é uma forma de vestimenta na composição do look. A hair stylit afirma que a África é plural e não pode e nem deve ser lida de maneira coletivizada. O que conhece do continente, além do seu país e da Nigéria, pais que faz fronteira, é com base na sua linha de pesquisa. Por tanto, sua cultura não é africana no aspecto geral, e sim, beninense, alerta. Descendente de artesã têxtil, aprendeu a manusear as estamparias africanas de tecidos feitos a mão desde muito cedo, algo que está cada vez mais difícil de serem encontradas, já que as estamparias industrializadas ganham cada vez mais força. Nesse desfile, em específico, Japhette trabalhou como produtora técnica, mas de um jeito ou de outro colocou a mão na massa para vestir a cabeça da Pimentel. Ela informa que conheceu a idealizadora no final de 2019, num desfile também realizado no Centro Cultural de São Paulo, no projeto “Palco às Ruas” em que ela fez parte da equipe como modelo do Africa Pluz Size. Apesar de ser uma mulher cisgênero se sente no lugar de invisibilidade:

“Eu me sinto muito honrada de ser um imigrante e estar junto com ela. A Vou Assim é sobre pessoas trans. Eu sou uma pessoa cis, mas eles me acolheram. E isso é muito bom porque em nenhum momento me senti desrespeitada ou sofri algum tipo de racismo ou xenofobia.”


A artista beninense ressalta que não tinha a perspectiva que tem hoje, poisa moda está muito associada ao fashion. E foi na Vou Assim que ela descobriu a pluralidade. Suas produções como mulher do continente africano se tornaram algo mais abrangente porque soube se utilizar das tecnologias trans para suas inspirações e fugir ao máximo da estética eurocêntrica, denunciado por meio do seu trabalho. Mas afinal, o que é ser fashion? Conforme pesquisa no Google, é aquilo que é considerado elegante, de bom gosto, moderno. Se avaliarmos a coleção da marca, a Vou Assim com seu desfile mostrou que é muito mais que fashion, é originalidade e de todes para todes. E assim como a Levita assina em sua música, a equipe da multiartista Pimentel não encontrou somente a realização de um belo trabalho, mas, principalmente, o caminho da sua “Destina”.


Confira o vídeo do desfile abaixo:

Confira as fotos do ensaio, backstage e desfile (@istreladoamanha):



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